Transferência de veículo: o guia completo
24 de agosto de 2026
Resposta direta
Transferir um veículo é expedir um novo Certificado de Registro, e a lei divide a responsabilidade em duas pontas que não se confundem. O comprador tem 30 dias para tomar as providências do novo certificado, pelo artigo 123, parágrafo 1º, do CTB, e responde pelo artigo 233 se não o fizer. O vendedor, se esse prazo expirar sem providência do comprador, tem 60 dias para comunicar a venda ao Detran, pelo artigo 134, sob pena de responder solidariamente pelas penalidades. O documento é digital: pela Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, que revogou a 809/2020, o CRLV-e reúne o certificado de registro e o de licenciamento, e a ATPV-e é um dos comprovantes de transferência.
Quase todo problema de transferência nasce da mesma confusão: tratar comprador e vendedor como se tivessem a mesma obrigação, no mesmo prazo. São duas obrigações distintas, em artigos distintos do CTB, com relógios que nem começam juntos. Separar as duas resolve a maior parte das dúvidas, e é por onde este guia começa.
Transferir é expedir um novo certificado
O artigo 123 do CTB(CTB, art. 123) lista quando é obrigatória a expedição de um novo Certificado de Registro de Veículo: quando a propriedade é transferida, quando o proprietário muda de município de domicílio ou residência, quando é alterada qualquer característica do veículo e quando há mudança de categoria.
O parágrafo 1º do mesmo artigo dá o prazo: no caso de transferência de propriedade, o proprietário tem 30 dias para adotar as providências necessárias à efetivação da expedição do novo certificado. Nos demais casos, as providências devem ser imediatas.
O vocabulário muda o que se procura: a lei não fala em "passar para o meu nome", fala em expedir novo Certificado de Registro de Veículo. É o mesmo ato.
As duas obrigações que não se confundem
Esta tabela é o resumo do guia inteiro.
| Comprador | Vendedor | |
|---|---|---|
| O que precisa fazer | Providenciar o novo Certificado de Registro | Comunicar a venda ao Detran |
| Base legal | CTB, art. 123, §1º | CTB, art. 134 |
| Prazo | 30 dias | 60 dias, contados depois de expirado o prazo do comprador |
| Se não fizer | Infração do art. 233: média, 4 pontos, com remoção do veículo | Responde solidariamente pelas penalidades até a data da comunicação |
O artigo 233(CTB, art. 233) descreve a infração do comprador: deixar de efetuar o registro do veículo no prazo de trinta dias, ocorridas as hipóteses do artigo 123. Com a redação da Lei 14.071/2020, é infração média, com multa de R$ 130,16 e remoção do veículo como medida administrativa.
A consequência de não comunicar está no próprio artigo 134: o antigo proprietário passa a responder solidariamente pelas penalidades impostas e suas reincidências até a data da comunicação. O detalhe de quem responde pelas multas nesse intervalo está em multa do carro que já vendi.
Os documentos que a lei exige
O artigo 124(CTB, art. 124) lista o que se exige para a expedição do novo certificado. Os itens que aparecem em quase toda transferência comum:
- o Certificado de Registro de Veículo anterior;
- o Certificado de Licenciamento Anual;
- o comprovante de transferência de propriedade, no modelo e nas normas do CONTRAN;
- certidão negativa de roubo ou furto, que pode ser substituída por informação do RENAVAM;
- comprovante de quitação de débitos de tributos, encargos e multas vinculados ao veículo.
Há ainda itens que só aparecem em casos específicos: Certificado de Segurança Veicular quando houve adaptação ou alteração de características, comprovante de procedência dos agregados montados no veículo, e comprovante de inspeção de poluentes e ruído quando for o caso.
Na regra de hoje, o comprovante de transferência é a ATPV do verso do CRV em papel, a ATPV-e ou outro instrumento eletrônico regulamentado pelo CONTRAN, conforme o artigo 25 da Resolução CONTRAN nº 1.027/2026(Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, art. 25). O artigo 7º, parágrafo 1º, da mesma resolução exige, na transferência, a vistoria de identificação veicular e o comprovante assinado pelo antigo e pelo novo proprietário.
Débito trava a transferência
O artigo 128(CTB, art. 128) é curto e direto: não será expedido novo Certificado de Registro de Veículo enquanto houver débitos fiscais e de multas de trânsito e ambientais vinculados ao veículo, independentemente da responsabilidade pelas infrações cometidas.
A expressão final é a que importa: a dívida acompanha o veículo, não a pessoa que cometeu a infração. Quem compra um carro com multa pendente compra o impedimento junto.
O artigo 7º da Resolução CONTRAN nº 1.027/2026(Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, art. 7º) repete a exigência: para expedir novo Certificado de Registro é preciso quitar os débitos de tributos, encargos e multas de trânsito vinculados ao veículo, independentemente da responsabilidade pelas infrações (inciso III), e não pode haver restrição administrativa, judicial ou cadastral impeditiva (inciso II). O artigo 24 faz a mesma trava na comunicação de venda: ela só é registrada se não houver restrição que impeça a transferência.
O documento hoje é digital
A regra vigente é a da Resolução CONTRAN nº 1.027/2026(Resolução CONTRAN nº 1.027/2026), publicada em 18 de agosto de 2026. Ela revogou a Resolução 809/2020(Resolução CONTRAN nº 809/2020) (artigo 60, inciso I) e entrou em vigor na publicação (artigo 61). A 809, em vigor desde 4 de janeiro de 2021, tinha instituído o CRLV-e e a ATPV-e, e a 1.027 mantém os dois documentos.
O CRLV-e reúne num único documento digital o Certificado de Registro de Veículo e o Certificado de Licenciamento Anual, conforme os artigos 121 e 131 do CTB (artigo 2º da 1.027). Ele é expedido só em meio digital, e a emissão de CRV em meio físico é vedada, sem prejuízo dos documentos em papel já expedidos (artigo 4º; artigo 59, parágrafo 2º). A ATPV-e, a Autorização para Transferência de Propriedade do Veículo em meio digital, é um dos comprovantes de transferência, ao lado da ATPV do verso do CRV em papel (artigo 25).
O artigo 13 lista quando o CRLV-e é expedido obrigatoriamente: no registro do veículo, no licenciamento anual, na transferência de propriedade, na mudança de município do proprietário, na alteração de característica, na mudança de categoria e na remarcação de chassi ou motor, além dos casos previstos em regulamentos complementares. A segunda via do CRV também sai só em CRLV-e (artigo 4º).
A transferência tem três etapas: registro da intenção de venda, comunicação de venda e transferência de propriedade com novo CRLV-e (artigo 16), mais a vistoria de identificação veicular (artigo 17). O registro da intenção de venda no Renavam é requisito prévio de qualquer modalidade (artigo 18, parágrafo 1º), exceto quando o CRV em papel é válido: aí a intenção é manifestada na ATPV do verso (artigo 16, parágrafo 3º). As modalidades são a convencional, a eletrônica e a eletrônica custodiada, que junta pagamento e transferência numa operação coordenada e só o órgão máximo executivo de trânsito da União processa (artigos 14 e 35). Quem escolhe a modalidade é o proprietário que inicia o processo (artigo 36).
Quando o cartório ainda entra
O que decide se você sai de casa é o documento do carro, não o valor dele.
| Situação do carro | Precisa de cartório? | Base (Resolução 1.027/2026) |
|---|---|---|
| CRLV-e, com ATPV-e assinada eletronicamente pelos dois | Não | Arts. 27 e 28 |
| CRV em papel válido, caminho convencional | Sim, com assinaturas manuscritas dos dois e firma reconhecida por autenticidade | Arts. 20 e 26 |
| CRV em papel desmaterializado antes pelo proprietário | Não na venda, que segue o caminho eletrônico; a desmaterialização é pedida ao Detran ou ao Tabelionato | Arts. 8º, § 1º, I, e 20, § 5º |
No caminho eletrônico, a ATPV-e é gerada depois do registro da intenção de venda (artigo 27) e cada parte assina com assinatura eletrônica avançada ou qualificada. A assinatura manuscrita na ATPV-e é vedada, e as duas assinaturas podem acontecer em momentos diferentes, cada uma registrada no Renavam na hora (artigo 28, parágrafos 1º e 2º). O artigo 47 autoriza, sem homologação específica, as soluções de assinatura do Governo Federal, as da ICP-Brasil, as do próprio Detran e as de cartórios, estas como canal facultativo.
A vistoria
A transferência é uma das duas ocasiões que a Resolução CONTRAN nº 941/2022(Resolução CONTRAN nº 941/2022, art. 2º) trata no seu artigo 2º, ao lado da mudança de domicílio intermunicipal ou interestadual. A responsabilidade é do Detran do estado. Pelo artigo 1º, parágrafo 2º, ele pode exercer a atividade diretamente, com servidores públicos especialmente designados, e pelo artigo 2º ela pode ser realizada por pessoa jurídica de direito público ou privado previamente habilitada. É faculdade do estado, não requisito de validade do laudo. A Resolução 1.027/2026 mantém a exigência: a vistoria de identificação veicular é condição adicional para o novo certificado na transferência (artigos 7º, parágrafo 1º, inciso I, e 17), nos termos da regulamentação específica.
A vistoria verifica quatro pontos: autenticidade da identificação do veículo e da documentação, legitimidade da propriedade, equipamentos obrigatórios presentes e funcionais, e características originais não modificadas sem autorização. O laudo é eletrônico e só vale se registrado no SISCSV. O detalhe de cada ponto está em vistoria veicular.
Por onde começar
Confira os débitos antes de fechar negócio
O artigo 128 impede a expedição do novo certificado enquanto houver débito vinculado ao veículo, e ele acompanha o carro, não o antigo dono.Decida o suporte da ATPV
Com CRLV-e, o vendedor registra a intenção de venda, os dois assinam a ATPV-e eletronicamente, sem cartório, e a comunicação de venda sai sozinha depois da segunda assinatura. Com CRV em papel há reconhecimento de firma, a menos que o dono desmaterialize o documento antes.Conte os dois prazos separadamente
O comprador tem 30 dias pelo artigo 123. O vendedor tem 60 dias que só começam quando esse prazo expira sem providência.Faça a vistoria pelo caminho oficial
Só vale laudo eletrônico registrado no SISCSV. A vistoria é responsabilidade do Detran do estado, que pode executá-la diretamente, por servidor designado, ou por pessoa jurídica habilitada.
Os casos específicos, como transferência entre estados, herança, doação e veículo com débito, têm artigo próprio e estão listados no fim desta página.
Perguntas frequentes
Quem tem que transferir o veículo, o comprador ou o vendedor?
O comprador. O artigo 123, inciso I, do CTB torna obrigatória a expedição de novo Certificado de Registro de Veículo quando a propriedade é transferida, e o parágrafo 1º dá ao proprietário 30 dias para adotar as providências. Quem não cumpre esse prazo comete a infração do artigo 233. O vendedor tem obrigação própria e diferente: comunicar a venda, pelo artigo 134.
Qual é o prazo real da comunicação de venda?
Não são 30 dias contados da venda. Pelo artigo 134 do CTB, com a redação da Lei 14.071/2020, o antigo proprietário deve encaminhar o comprovante de transferência ao Detran no prazo de 60 dias contados a partir do momento em que expira o prazo do artigo 123, parágrafo 1º, sem que o novo proprietário tenha tomado as providências. Ou seja, o relógio do vendedor só começa depois de esgotado o do comprador.
Dá para transferir um carro com multas ou IPVA atrasado?
Não enquanto os débitos existirem. O artigo 128 do CTB diz que não será expedido novo Certificado de Registro de Veículo enquanto houver débitos fiscais e de multas de trânsito e ambientais vinculados ao veículo, independentemente da responsabilidade pelas infrações cometidas. A Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, no artigo 7º, repete a exigência de quitação para expedir novo Certificado de Registro (inciso III) e acrescenta que restrição administrativa, judicial ou cadastral impeditiva também trava a expedição (inciso II).
Ainda existe documento de papel do carro?
Não para documento novo. A Resolução CONTRAN nº 1.027/2026 manda expedir o Certificado de Registro exclusivamente em meio digital, pelo CRLV-e, e proíbe a emissão em meio físico (artigo 4º). O CRLV-e reúne num único documento o Certificado de Registro de Veículo e o Certificado de Licenciamento Anual (artigo 2º). O CRV em papel já emitido continua válido enquanto não for substituído, cancelado ou desmaterializado (artigo 59, parágrafo 2º), e é por isso que ainda há dois caminhos de assinatura.
Preciso de cartório para vender o carro?
Depende do documento do carro. Com CRLV-e, a ATPV-e é gerada depois do registro da intenção de venda e assinada eletronicamente pelos dois, com assinatura avançada ou qualificada, sem cartório (artigos 27 e 28 da Resolução CONTRAN nº 1.027/2026). Com CRV em papel válido, o caminho convencional exige a ATPV do verso com as assinaturas manuscritas dos dois e reconhecimento de firma por autenticidade em Tabelionato de Notas (artigo 26). O proprietário de CRV em papel pode pedir a desmaterialização antes, ao Detran ou ao Tabelionato, e seguir pelo caminho eletrônico (artigos 8º, parágrafo 1º, inciso I, e 20, parágrafo 5º). A resolução vale desde 18/08/2026 e deu 90 dias para os órgãos se adequarem (artigo 58), então confirme no Detran do seu estado qual fluxo está disponível.
A transferência exige vistoria?
Em regra sim. O artigo 2º da Resolução CONTRAN nº 941/2022 trata da vistoria de identificação veicular por ocasião da transferência de propriedade, com responsabilidade do Detran do estado, que pode executá-la diretamente ou por pessoa jurídica habilitada. O laudo é eletrônico e só vale se registrado no SISCSV. Há dispensas: o artigo 2º-A, incluído pela Resolução 977/2022, permite dispensar a vistoria em fusão, cisão ou incorporação de empresas, em transferência entre entes públicos e em transferência entre filiais da mesma empresa, sempre a critério do Detran e mediante análise do caso concreto.
Fontes
- 1.CTB (Lei 9.503/1997), arts. 120 a 124, 128, 134 e 233, texto compiladohttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9503compilado.htm
- 2.Resolução CONTRAN nº 1.027/2026, registro, licenciamento e transferência de propriedade de veículos (gov.br/transportes)https://www.gov.br/transportes/pt-br/assuntos/transito/conteudo-contran/resolucoes/resolucao10272026.pdf
- 3.Resolução CONTRAN nº 809/2020, revogada pela 1.027/2026 (Diário Oficial da União)https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-contran-n-809-de-15-de-dezembro-de-2020-296178226
- 4.Resolução CONTRAN nº 941/2022, vistoria de identificação veicular (Diário Oficial da União)https://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-contran-n-941-de-28-de-marco-de-2022-390332791
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